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02/08/2013 | 16:11h

Literatos: Manifesto do Nada na Terra do Nunca, de Lobão

Literatos: Manifesto do Nada na Terra do Nunca, de Lobão

Literatos: Manifesto do Nada na Terra do Nunca, de Lobão

Resenha original publicada em 02/08/2013 por Housy Amorim no site iluminerds.com.br.



O mais novo livro do cantor Lobão é uma bomba. Até aí não é grande novidade, o cantor não é conhecido pela cordialidade nas letras de suas canções, nem mesmo no que tange ao tratamento dispensado a outros artistas. Na verdade, o mais importante desse livro talvez não seja seu caráter espetaculoso, mas a coerência e o rigor com que o artista instiga e diverte o leitor.

Antes, porém, falemos do tipo textual do manifesto – isso é importante para o entendimento da obra que ora se apresenta. O livro é, em alguma medida, um reflexo de uma longa tradição entre os artistas – a redação de um manifesto. Esse tipo de texto, muito comum no final do século XIX até a primeira metade do século XX, foi fundamental para o entendimento das Humanidades com relação à prática artística da língua, ou seja, da prática literária. Para aqueles que viriam a ser conhecidos como pré-modernistas e modernistas, o manifesto servia como uma carta de princípios sobre o entendimento deles do que seria arte. No Brasil, isso virou uma verdadeira obsessão, pois temos manifestos consecutivos até meados dos anos 1960 – para saber mais sobre isso, procurem o conhecido livro de Gilberto Mendonça Telles, um imortal da ABL que realmente trabalha em prol da cultura nacional.



Há um outro dado importante com relação aos manifestos – todos eles foram marginalizados por acadêmicos e artistas em sua época para depois (ou seja, nos dias de hoje) serem tratados como textos canonizados pelas universidades que estudam os problemas estéticos. Em minhas andanças pelo meio universitário, ministrei cursos sobre os Manifestos europeus e brasileiros com o fim de explicar exatamente o nocivo processo de canonização desses textos. Creio que meus alunos, nesse período, aprenderam ao menos a olhar os manifestos e suas consequências com certa desconfiança, o que é bom para a evolução das Humanidades. Porém, aqui não é lugar para academicismos e sim para um comentário malemolente sobre os escritos do Maldito…

O manifesto de Lobão aponta para um inimigo – Oswald de Andrade. Para quem não conhece, Oswald é o pai do Modernismo Brasileiro (e avô da Tropicália e de outros movimentos na música), foi o artista que mais escreveu manifestos naquele período e uma das estrelas da década de 1920 na literatura, além de boêmio, pegador e outras características não muito politicamente corretas. O Oswald atacado por Lobão é o heroico Oswald, aquele que ele viria a se tornar após o estardalhaço que foi o Modernismo no Brasil. Para Lobão, esse Oswald é responsável por todo o tipo de mal que existe hoje na intelligentsia da nação. O autor define essa intelligentsia em vários níveis – político, econômico, cultural, acadêmico – e, para ele, todos os níveis apresentam um congelamento cujo grande herói solar é Oswald de Andrade.



“Oswald de Andrade é o herói do quê?!” – o leitor incrédulo pode perguntar. E trata-se de uma pergunta justa, pois nosso país sofre de uma carência enorme de heróis no sentido amplo do termo e, normalmente, nossos heróis são importados de outros países e/ou linguagens – quase uma imposição do outro em nossas mentes. A oportuna visão heroica do Papa nessa visita ao Brasil é o exemplo cabal do sistema de heroicidade que compartilhamos. Aliás, este site é também prova cabal do argumento, mas Lobão insiste que até esse fenômeno tem como herói principal Oswald de Andrade.

O autor defende a ideia de que a “brasilidade” defendida por Oswald é um dos maiores erros que foram cometidos ao país durante o século XX. Oswald entendia a brasilidade como o culto à preguiça, o elogio à malandragem, o aproveitamento da corrupção como algo positivo, a antropofagia cultural como desculpa a todo tipo de plagiário (mas visto de maneira positiva, como algo grandioso), o preconceito velado como signo de decência, a indistinção do que é próprio e do que é alheio. Enfim, Oswald elogia tudo aquilo que compõe a grandiosa nação brasileira, colocando todos os seus caracteres negativos como algo positivo, distintivo da nação. Quase um século depois, Lobão pode afirmar que isso não é nada positivo, aliás, por mais que não queira, ele é obrigado a concordar com Sérgio Buarque de Hollanda e seu Raízes do Brasil. Para o cantor/autor, o problema é ainda mais grave, pois essas características não são mais vistas como algo negativo e danoso – elas se espalharam de tal forma na cultura brasileira que é possível que vejamos como a verdadeira identidade nacional: negativa, danosa e contrária a seus próprios irmãos brasileiros.



O manifesto de Lobão aborda tanto a política de Brasília quanto a política ordinária dos tratamentos interpessoais. Aparentemente, todas as organizações sofrem com a malandragem vista como algo positivo, com leis que são reinterpretadas ao bel prazer (como a lei de incentivo à cultura, ou a lei de incentivo a novos artistas) para que tudo continue da mesma forma que antes – os medalhões recebendo dinheiro do Governo (isenção de impostos é dinheiro do Governo sem burocracia, não sejamos estúpidos) e os novos artistas tendo de fazer das tripas coração para conseguir cantar numa churrascaria ou expor livros no porão de um museu. Nas palavras de Lobão, a situação é tão escrota que, na época em que ele iniciou uma gravadora, outros artistas (dentre eles, Caetano Veloso e Gilberto Gil) diziam que seria impossível a criação de um selo independente nas terras brasileiras. Lobão mostrou aos filhos de Oswald – os dois diziam-se herdeiros da antropofagia – que não só era possível como era uma importante solução para vários eixos – tornar-se independente, além de ser uma árdua tarefa, é, em alguma medida, mostrar àqueles que acreditam no Mercado que há uma saída: arregaçar as mangas pra arregaçar as pregas dessa lógica mercantil.



O livro é dividido, então, em oito partes. Nele, temos poesia, crônica, a relação entre o artista e “A Liga”, uma análise sobre o rock brasileiro, uma tirada sobre o RAP e uma carta-resposta ao “Manifesto Antropofágico”, de Oswald. Apesar de a resposta propriamente dita a Oswald só se apresentar no último capítulo do livro, o fantasma do modernista nos é apresentado no prefácio e segue caminho pelas mais de 200 páginas. A antropofagia como bem cultural do brasileiro é simplesmente demolida pelo autor que convenciona a “brasilidade” a um projeto por vir – tal qual já havia feito por José de Alencar, Machado de Assis, Sérgio Buarque de Hollanda, João Cezar de Castro Rocha e tantos outros. Lobão, no entanto, estabelece a diferença – aqui há uma brasilidade a ser combatida para a formação de uma nova identidade nacional, nossa primeira formação de uma identidade se deu pelo estardalhaço e pela corrupção que é inerente a todo o brasileiro, detectado o problema, juntemos as mãos e façamos diferente…



Ficha Técnica:

Título – Manifesto do Nada na Terra do Nunca

Autores – Lobão

Número de páginas – 248

Editora – Record



Matéria original publicada aqui


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