A Vida é Doce

1999
El Desdichado II

Eu sou o tenebroso, o irmão sem irmão,
O abandono, inconsolado,
O sol negro da melancolia

Eu sou ninguém, a calma sem alma que assola, atordoa e vem
No desmaio do final de cada dia

Eu sou a Explosão, o Exu, o Anjo, o Rei
O Samba-sem-canção, o Soberano de toda a alegria que existia

Eu sou a contramão da contradição
Que se entrega a Qualquer deus-novo-embrião pra traficar
O meu futuro por um inferno mais tranquilo

Eu sou Nada e é isso que me convém
Eu sou o sub-do-mundo e o que será que me detém?

Eu sou o Poderoso, o Bababã,
O Bão! Eu sou o sangue, não!
Eu sou a Fome! do homem que come na brecha da mão de quem vacila

Eu sou a Camuflagem que engana o chão
A Malandragem que resvala de mão em mão
Eu sou a Bala que voa pra sempre, sem rumo, perdida

Eu sou a Explosão, o Exu, o Anjo, o Rei
Eu sou o Morro, o Soberano, a Alegoria que foi a minha vida

Eu sou a Execução, a Perfuração
O Terror da próxima edição dos jornais
Que me gritam, me devassam e me silenciam.


Universo Paralelo

Uma, duas, três, já eram quatro da manhã
E eu andando por aí desde que anoiteceu
Perambulando na calçada de bar em bar
Tentando achar alguma coisa para me esquecer

Me distrair ou amanhecer
Ou alguém legal pra me abandonar
Pra enloquecer um pouquinho ou talvez
Ou um montão, sei lá

Foi aí então que eu te encontrei
Absolutamente pronta pra arrebentar
Com os corações dos desavisados
Procurando alguma presa para estraçalhar

Parei, pensei, filosofei
Há sempre uma outra pose por trás de quem posa
Mas ela posa bem, e como um animal rastejador, te perguntei
Tá afim de ir para o universo paralelo?
É! Tá afim de arrebentar no universo paralelo?

Você topou, que bom
E me propôs agilizar rapidamente a nossa locomoção
Chamar um avião pra se mandar de vez pro tal
Pro tal, hum do universo paralelo

Eh-eh! Pra se mandar de vez, pro universo paralelo
Eh-eh-eh

E nada ficou com início, meio e fim
E o mundo parou, descontinuou, mudou
E então, como foi? Legal? Que bom!
Como eu gosto de te ver assim, feliz, feliz

E então, como foi? Legal? Que bom!
Como eu gosto de te ver assim, feliz, eh

E nada ficou com início, meio ou fim
E o mundo parou, descontinuou, mudou
E então, como foi? Legal? Que bom!
Como eu gosto de te ver assim, feliz, feliz, eh

E então, como foi? Legal? Que bom!
Como eu gosto de te ver assim, feliz, eh

E então, como foi? Legal? Que bom!
Como eu gosto de te ver assim, assim feliz


Pra Onde Você Vai

Nas paredes escrevia o seu nome
Pra tentar esquecer
No espelho assistia à própria dor
De lembrar
Na sala vazia, a televisão ligada,
Uma tentação de existir
Na cama, sem dono, perguntava
Como tudo foi acabar

Minha aventura
Pra onde você foi?
Pra onde você vai?

Se ao menos, tanta coisa que se
Vive junto não evaporasse assim
Se, ao menos, na hora dela me deixar
Precisasse um pouco mais de mim
Se, ao menos, no escuro eu
Conseguisse apagar
Dormir sem sonhar, apenas
Dormir sem sonhar?


Tão Menina

Ela cresceu ouvindo certas coisas
Mas acabou vivendo uma outra história
Enquanto tinha tempo, acreditava
Enquanto acreditava, via o tempo indo embora

Permaneceu meio complicada
Na medida que a vida vinha e atropelava
Carregou todos os seus sonhos como pôde
Até assistir, um por um, desmoronados
Carregou todos os seus sonhos como pôde
Até assistir, um por um, desmoronados

Não vai mais amanhecer
Pelas esquinas o medo sussurra
Não vai mais amanhecer
Entre seringas e guardanapos
Não vai mais amanhecer
Sem dono, ganhou a noite
Sem dono, ganhou a noite
E era tão menina,
E era tão menina,
Era tão menina,
Era tão menina...

Entre um desalento e um suicídio
Ela preferiu o gozo de um pesadelo
Suas lágrimas que nunca brotaram
Inundam sua alma, inundam sua alma
Suas lágrimas que nunca brotaram
Inundam sua alma, inundam sua alma

Ressecam o espírito, paralisam o corpo
Regelam seu rosto, regelam seu rosto
Ressecam o espírito, paralisam o corpo
Regelam seu rosto, regelam seu rosto

Não vai mais amanhecer
Entre algemas e corações abandonados
Não vai mais amanhecer
Sua bandeira virou um alvo
Não vai mais amanhecer
Sem dono, ganhou a noite
Sem dono, ganhou a noite

E era tão menina
E era tão menina
Era tão menina…


A Vida É Doce

Com a mesma falta de vergonha na cara eu procurava alento no
Seu último vestígio, no território, da sua presença
Impregnando tudo tudo que
Eu não posso, nem quero, deixar que me abandone
Não posso, nem quero, deixar que me abandone
Não posso, nem quero, deixar que me abandone não
Com a mesma falta de vergonha na cara eu procurava alento no
Seu último vestígio, no território, da sua presença
Impregnando tudo tudo que
Eu não posso, nem quero, deixar que me abandone
Não posso, nem quero, deixar que me abandone
Não posso, nem quero, deixar que me abandone não
São novamente quatro horas, eu ouço lixo no futuro
No presente que tritura, as sirenes que se atrasam
Pra salvar atropelados que morreram, que fugiam
Que nasciam, que perderam, que viveram tão depressa,
Tão depressa, tão depressa
São novamente quatro horas, eu ouço lixo no futuro
No presente que tritura, as sirenes que se atrasam
Pra salvar atropelados que morreram, que fugiam
Que nasciam, que perderam, que viveram depressa, depressa demais
A vida é doce, depressa demais.
A vida é doce, depressa demais.
A vida é doce, depressa demais.
E de repente o telefone toca e é você
Do outro lado me ligando, devolvendo minha insônia
Minhas bobagens, pra me lembrar que eu fui a coisa mais brega
Que pousou na tua sopa. Me perdoa daquela expressão pré-fabricada
De tédio, tão canastrona que nunca funcionou nem funciona
E de repente o telefone toca e é você
Do outro lado me ligando, devolvendo minha insônia
Minhas bobagens, pra me lembrar que eu fui a coisa mais brega
Que pousou na tua sopa. Me perdoa daquela expressão pré-fabricada
De tédio, tão canastrona que nunca funcionou nem funciona
Me perdoa,
Me perdoa, a vida é doce,
Me perdoa, me perdoa, me perdoa...
São novamente quatro horas, eu ouço lixo no futuro
No presente que tritura, as sirenes que se atrasam
Pra salvar atropelados que morreram, que fugiam
Que nasciam, que perderam, que viveram tão depressa,
Tão depressa,
São novamente quatro horas, eu ouço lixo no futuro
No presente que tritura, as sirenes que se atrasam
Pra salvar atropelados que morreram, que fugiam
Que nasciam, que perderam, que viveram depressa, depressa de mais
A vida é doce, depressa demais...
A vida é doce, depressa demais...
A vida é doce, depressa demais...
A vida é doce, depressa demais...


Uma Delicada Forma De Calor

Eu me lembro
de você ter falado
Alguma coisa sobre mim
E logo hoje, tudo isso vem à tona
E me parece cair como uma luva
Agora, num dia em que eu choro
Eu tô chovendo muito mais do que lá fora
Lá fora é só água caindo
Enquanto aqui dentro, cai a chuva

E quanto ao que você me disse
Eu me lembro sorrindo
Vendo você tão séria
Tentar me enquadrar, se sou isso
Ou se sou aquilo
E acabar indignada, me achando totalmente impossível
E talvez seja apenas isso:
Chovendo por dentro
Impossível por fora

Eu me lembro de você descontrolada
Tentando se explicar
Como é que a gente pode ser tanta coisa indefinível
Tanta coisa diferente
Sem saber que a beleza de tudo
É a certeza de nada
E que o talvez torne a vida um pouco mais atraente

E talvez, a chuva, o cinza,
O medo, a vida, sejam como eu
Ou talvez , porque você esteja de repente,
Assistindo muita televisão

E como um deus que não se vence nunca
O seu olhar não consegue perceber
Como uma chuva, uma tristeza, podem ser uma beleza
E o frio, uma delicada forma
De calor


Tão Perto, Tão Longe

Pode ser até que eu goste
Mas não suporto. Eu me rendo.
Eu simplesmente não posso
Ficar vivendo e sentindo você assim:
Tão perto, tão longe...
Tão perto, tão longe.

Pode ser até que eu goste
Mas não suporto. Eu me rendo.
Eu simplesmente não posso
Ficar vivendo e sentindo você assim:
Tão perto, tão longe...
Tão perto, tão longe.

Eu sei que eu não posso mais viver essa vida
De beira de abismo.
Tão perto do seu lado, tão longe do seu carinho.
Querendo você cada vez mais
Cada vez mais
Sozinho...

Eu sei que eu não posso mais viver essa vida
De beira de abismo.
Tão perto do seu lado, tão longe do seu carinho.
Querendo você cada vez mais
Cada vez mais
Sozinho...


Ipanema No Ar

Flores multicoloridas da primavera
Agora nao me interessam
Só a umidade fria ornamentada pelas nuvens
Me faz sonhar

Galhos ressequidos de amendoeiras
No outono se erguem aos céus olhando
E essa atmosfera cinza em Ipanema
Me faz sonhar

E me faz sonhar
E me faz dizer
Isso me interessa

Na minha cidade, a vontade se escôa
Numa guanabara elétrica de preguiça
Tudo é descontroladamente lindo
Como gol acidental

Tão suicida essa esquisita forma
Envertida de felicidade
E a gente continua comemorando
Coisa alguma sempre a sorrir

Isso me faz sonhar
Isso me faz dizeri
Isso me interessa

Sonhos de felicidade continuam atropelando
A paisagem que chove na lagoa
Coroando tudo o que se espera de uma beleza
Independente do sol

Ipanema noite me faz sonhar
Com qualquer tipo de beleza
Principalmente com aquela
Que agente necessita inventar

Isso me faz sonhar
Isso me faz dizer
Isso me interessa

Ainda não é verão
Nem carnaval
Isso me interessa


Vou Te Levar

Pensar em tudo que se passou
Que se pôde sonhar e não realizou
A vida tentando escapar
Mas não por agora

Ao mesmo tempo tanta coisa se amou
Se refez, se perdeu, se conquistou
Retratos estampados do nosso amor
Em preto e branco, pregados na parede

Revelando pra sempre a gente
Nosso orgulho um do outro
Olhando pra lente como quem dissesse
Não queremos mais nada nesse mundo

E que me lembrasse a cada instante
Que valeu a pena cada lance
E que valerá, tenha certeza
Pra toda a vida

Vou levar, vou te levar
Pra onde for, vou te levar
Vou levar, vou te levar
Pra onde for, vou te levar

Pensar em tudo que se passou
Que se pôde sonhar e não realizou
A vida tentando escapar
Mas não por agora

Ao mesmo tempo tanta coisa se amou
Se refez, se perdeu, se conquistou
Retratos estampados do nosso amor
Em preto e branco, pregados na parede

Revelando pra sempre a gente
Nosso orgulho um do outro
Olhando pra lente como quem dissesse
Não queremos mais nada nesse mundo

E que me lembrasse a cada instante
Que valeu a pena cada lance
E que valerá, tenha certeza
Pra toda a vida

Vou levar, vou te levar
Pra onde for, vou te levar
Vou levar, vou te levar
Pra onde for, vou te levar

Vou levar, vou te levar
Pra onde for, vou te levar
Vou levar, vou te levar


Mais Uma Vez

Ás vezes é melhor deixar a hora passar
Ás vezes é melhor virar a página e recomeçar tudo de novo, tudo de novo mais uma vez!

Ás vezes é melhor sorrir, imaginar
Ás vezes é melhor não insistir, e deixar rolar
E tratar as sombras com ternura, o medo com ternura e esperar

Ás vezes é melhor deixar o grito escapar
Ás vezes é melhor perder o controle e desabar, e quebrar todas as promessas e atacar!

Ás vezes é melhor deixar a hora passar
Ás vezes é melhor virar a página e recomeçar tudo de novo, tudo de novo mais uma vez!

Ás vezes é melhor sorrir, imaginar
Ás vezes é melhor não insistir, e deixar rolar
E tratar as sombras com ternura, o medo com ternura e esperar

Ás vezes é melhor deixar o grito escapar
Ás vezes é melhor perder o controle e desabar, e quebrar todas as promessas e atacar!
E quebrar todas as promessas, todas as promessas!


Amanhecendo Na Lagoa

Instrumental


A Vida é Doce

A Vida é Doce

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