Noite
1998Caiu a noite, chegou a hora
Parece que não vem
Mas a vontade é que demora
Não dá mais pra ficar sem sentir
Quero ouvir no estômago
Ver o teto cair
Por favor vê se aumenta a pressão
Eu tô na paz, eu tô relax
Mas preciso de mais emoção
E a noite gira e todo mundo dança o que puder
Como se não houvesse nada mais o que dançar
Como se não houvesse nada mais pra amanhecer
Como se não houvesse nada mais pra acreditar
Tudo bem
Se a alegria é química
Só sei que a noite me devora
E me faz pensar que eu sei amar
O grito é a fuga do silêncio
O prenúncio de um gozo ou um sinal de dor
Pode ser um aval para o covarde
Ou para a alegria olímpica do vencedor
Não raro é um xodó de psiquiatras
Ou simplesmente um deleite para quem gosta de gritar
O grito, pai da palavra, sogro do pânico, primo do desespero,
Neto da vida e da morte, filhote do entusiasmo e da euforia
A certeza da certeza faz o louco gritar
A certeza da certeza faz o louco gritar
A certeza da certeza faz o louco gritar,
Gritar, gritar, gritar
Grito de carnaval, grito de guerra
Geralmente as vaias são o grito do minuto de silêncio
Grita o coro da tragédia
Gritam também as menininhas da platéia
O grito é o mantra do condenado
Ou do atingido pela sorte de um bilhete de loteria
Grita a boca desgrenhada do ventre anunciando a fome
Grita o pastor esconjurando demônios na sua liturgia
A certeza da certeza faz o louco gritar
A certeza da certeza faz o louco gritar
A certeza da certeza faz o louco gritar,
Gritar, gritar, gritar
Sozinha minha quando vejo a tua cara
Triste quando cala, triste quando fala
Eu vejo o silêncio da dor
Sozinha minha, o teu gesto que desaba
Grita quase lágrima, rima quase lágrima
Esquece os teus olhos em mim
Sem tentar dizer
Que tá tudo igual
E todo mundo anda desse jeito
Sempre o mesmo jeito
Que só dá vontade de sumir
Porque tá tudo igual
E todo mundo anda desse jeito
Sempre o mesmo jeito
Então me abraça e esquece
Todo o luto que esse mundo tem
Como tudo que dói
A tarde vai queimando o lixo e a beleza no seu véu
De fumaça e cinza
Espalhando o calor e o silêncio no abandono do dia
O ar quente treme no espelho do asfalto
Refletindo pedras e restos de cães atropelados
O céu de urubus em espiral
Estampa, desliza e prolonga a sensação do vazio
Aí eu me pergunto: hoje é véspera de que?
Aí eu me pergunto: hoje é véspera de que?
Talvez hoje seja, simplesmente, véspera de nada
Pensamentos viram fumaça na tarde
Condensando o alento de uma esperança feita de nuvens
Sonhos com uma trégua de orvalhos noturnos
Desaparecem no bafo quente do agouro de mais e mais e mais desertos
E a alma se entrega chorando
Numa última oração à primeira estrela que resta
Como se pudesse reinventar horizontes
Para manhãs abandonadas
Aí eu me pergunto: hoje é véspera de que?
Aí eu me pergunto: hoje é véspera de que?
Talvez hoje seja, simplesmente, véspera de nada
A estrada vazia
Instaura a hora deserta
E a vida insinua sem ser descoberta
Pulsa a veia, a víscera, a terra, o chão
Na estrada a vida pulsa por qualquer secreção
Halo de vida que exala das pequenas mortes
Sexo, ascese, acaso, sorte
Necessidade, desejo, esperança, perda
Explodirá a vida
Em sangue, suor e esperma
E por algum instante ser apenas falta
Ser a hora mais deserta que habita em nós
Ser nada, desamparo de qualquer exílio
Ser a estrada que vazia reverbere a voz
Da vida e pulse toda
A vida pulse toda
Voa da estrada
E desafia a queda, desfia a queda
Voa da estrada
Pra não mais pousar
Pára um pouco, descansa um pouco
Relaxa e olha pra mim
E vê se dá pra destravar
Que da minha parte, você sabe
Eu não quero nada além do que você consegue ser
Nem mais, nem menos
Então, vem agora
Meu amor, meu amor
A tua liberdade é tudo que eu quero desfrutar
Minta, inventa qualquer verdade, não importa
Se sinta à vontade pra poder dissimular
E, se por acaso, você ficar com medo
Tudo bem, eu também não tenho nada pra poder me segurar
Não sei não, mas talvez, seja isso
Essa falta seja o aviso
De que a gente não tendo outra escolha, arrange coragem
Pra admitir
Quem ama, não pode
Esperar nada de quem tudo se quer
Quem ama, não pode
Esperar nada de quem tudo se quer
Por isso, conta comigo
Pra qualquer destino
Meu abismo, meu abrigo
Só se vive o que se ama
Minha alma chora, vejo o Rio de JaneiroRio do desterro, samba, funk, telecoteco e James BrownVejo a anatomia de um abraço numa lápide indefesaCristo Rendido, paixão, telenovela e carnavalAqui o narciso é carioca, não morre afogado, mergulha, dá umjeitoSe transforma em peixe ornamentalE o Rio se devora e se repele numa fantasia tristeEm ser um capacho alegre, sempre da maneira mais atualEsse é o samba da caixa pretaSalve o samba, nós temos sambaEsse é o arremedo de suíngue, balanço, funk, telecoteco?Esse é o aconchego indulgente das águas de março fechando overão.Fechando o verão?Esse é o narciso se achando esperto por não dar bandeira deafogadoSe afoga narciso, pelo menos issoSe afoga narciso, compromisso é compromissoSe afoga narciso, avec elegance, esperteza tem horaSe afoga narcisoSobe o morro, desce o asfaltoBala perdida, mãos ao alto!Não sei se corroNão sei se caloÉ a Rocinha, é o CantagaloNão tem sujeira, é o verãoSem promessa de vida pra qualquer coraçãoÉ a polícia, é o emergente da BarraÉ a Tijuca, é a GuanabaraRio, me abraça com todos os teus restosQue eu sou tua cria, subproduto do subprodutoRio, me abraça com a tua decadência que eu te chamo deMaravilhosa precariedade na permanênciaMaravilhosa precariedade na permanênciaMaravilhosa precariedade na permanênciaMaravilhosa precariedade na permanênciaMaravilhosa!!!!
Deixa o que for te acontecer
Sua insegurança lentamente vai parar
De te esconder
Viva e não tenha medo não
Que a pose é a medida
De toda a nossa pretensão
Livre os teus gestos de ensaiar
Felicidade é coisa que não dá
Pra se premeditar
Calma não há nada a conseguir
Nem vitória, nem derrota
Nem troféu pra exibir
Deixa o teu riso aparecer
Não dissimule nada sem pensar como se defender
Deixa essas coisas para tras
A vida é bem mais simples
Do que geralmente a gente faz
Me beija, na rua a lua apareceu
Você, a lua, a rua e eu
Incidental: RAP DO CHAFARIZ
(Plínio Profeta)
Ser feliz pra sempre, é o que você me diz
Vou tomar banho num chafariz imundo
No meio do centro da cidade
A felicidade não é fácil definir
Mas para alguns é não saber pra onde ir
Vou com cinquenta centavo
E vou me divertir, neguinho
E vou sozinho
E vou deixar acontecer o que vier no meu caminho
Eu vou deixar o que for acontecer
Não sei se ainda faz algum sentido
Te lembra que o dia já começa a clarear
Devagar as luzes da cidade vão morrendo
E você aí parada olhando um poste bêbado apagar
Eu chamo o cara do estacionamento
Você desata a rir da pinta neoliberal de um playboy
Te peço a gorjeta, você me passa a carteira inteira
Insinuando discretamente que bebeu demais
E as ruas vazias se despedem da noite
Você insiste em parar pra comer um hot-dog
E as ruas vazias se despedem da noite
Você insinuando discretamente estar tão só
Mas não se leva a mal
Que a solidão paira na cidade
Pertence à cidade
Não, não se leva a mal
De vez ou outra se sentir assim, se sentir assim
Imediatamente após o seu pedido
Entro no posto 24 horas pra reabastecer
Te olho enviesado pelas prateleiras, indeciso
Nada é realmente aquilo que a gente quer viver
Então eu digo, meu amor, vamos para a casa
Esquece esse vazio que essas coisas todas dão
Vamos embora pra bem longe em nosso carrinho
Só nós dois, nossa alegria e nossa escuridão
Em todos os dias que passei
Andando por aí a procurar
Algum tipo de sinal
Deixei tanta estrada pra trás
Poeira, asfalto sob o céu
E todos os caminhos para o mar
Mas não deixei nós dois
Pois eu estou aqui
Junto de você sem ter pra onde ir
Até a gente decidir
Quem sabe, até o entardecer
Um rumo nessa vida, um talvez
Pra onde ir
O abrigo da chuva é o céu
O que ilumina a estrada é a lua
E o vento beija o mundo
Algo que derrama
Ultrapassando a necessidade da proporção
Que escorre das veias
Máquina de desejo
Recusa de acomodação
Do que não se comporta
Continente fissurado pelo conteúdo
Continente fissurado pelo conteúdo
A luz do excesso irradia
E conduz ao palácio da sabedoria
Não suportar o carinho e
Gozar
Explodir a razão
Transcender o pré-juízo e até o gozo
Por simplemente
Amar
Transbordar é perverter a desordem
É tudo que a ordem
Tenta em vão
Organizar
É não ter filão, condão ou trilho
Que conceda alguma regra ao delírio
Que o sonho possa
Desenjaulado
Que o sonho possa
Transbordar